Ela nasceu longe do mar. Mas o chamado do oceano era mais forte do que a geografia. Micaela Fregonese cresceu em Curitiba, a quilômetros de qualquer linha de arrebentação — e ainda assim foi no vai e vem das marés que ela encontrou sua verdadeira identidade. A conexão surgiu em um momento simples, porém revelador: a primeira vez em que surfou uma onda longa no Pico de Matinhos. “Ela não acabava nunca”, relembra. “Fui indo, indo, e pensei: é isso que eu quero fazer da minha vida.”

De lá pra cá, ela não apenas seguiu surfando, como também se tornou uma das maiores big riders do planeta. Hoje, Mica é referência internacional quando o assunto são ondas gigantes — da remada em grandes swells no quintal de casa ao tow-in em Jaws, onde surfou a maior onda da sua carreira em dezembro de 2024. Uma montanha líquida que mudou tudo: “Foi a onda mais difícil da minha vida. Uma força que eu nunca tinha sentido antes. Só pensava em sobreviver”.
Essa relação com o risco não é sobre impulso, mas sobre preparação, paixão e propósito. Micaela é movida pela sensação que só uma onda gigante pode proporcionar — a adrenalina do drop, a harmonia do tubo, a vitória pessoal em sair viva de algo que parecia impossível. Mesmo quando as dúvidas vinham de dentro de casa, ela seguiu firme. “Meu pai sempre teve mais medo do que orgulho. Mas prometi que bateria o recorde mundial — e quase consegui. Faltou um metro.”
Mesmo sem equipe fixa, sem grandes patrocínios e muitas vezes sem o apoio esperado, ela encontrou formas de se manter de pé — e debaixo d’água. Desenvolveu um olhar estratégico para cada tipo de swell e equipamento, de acordo com o pico: Nazaré pede pranchas Kronig, Jaws funciona com os shapes do Pacelli, e o jet ski — sempre que há — precisa ser conduzido por alguém experiente. “A chave de uma boa sessão de tow-in é a equipe. Se você se sente segura, você surfa mais.”
Mas nem sempre ela teve isso. E nem sempre deu certo. A pior experiência veio em Himalayas, quando uma série gigante quebrou bem em cima dela durante uma remada. “Fiquei a maior parte da série embaixo d’água. Não conseguia submergir. Achei que fosse morrer.” Naquele dia, inflou duas vezes o colete — e ainda assim teve apenas segundos para respirar entre um caldo e outro. Saiu salva por um jet ski, com o leash arrebentado e a memória de que o mar, às vezes, quer te testar até o último segundo.

Hoje, com reconhecimento internacional, prêmios e recordes à vista, ela celebra uma nova fase — e um novo marco para o surfe brasileiro. Em 2025, a Laje de Jaguaruna receberá pela primeira vez uma etapa do Big Wave World Tour. “É um orgulho enorme pro Brasil. E muito legal ver a remada sendo valorizada. É o surfe raiz. Eu amo as duas modalidades, mas a remada é ainda mais gratificante.”
Enquanto treina no Recreio e se prepara para a temporada de inverno no hemisfério sul, Mica também carrega uma bandeira ainda maior: a do surf feminino. Ela foi uma das responsáveis por garantir que uma categoria feminina existisse em um campeonato que se recusava a abrir esse espaço. Conseguiu patrocínio, insistiu, lutou. “Eu sirvo de inspiração pra outras mulheres como a Michele e a Maia foram pra mim. Estamos escrevendo a história do surf mundial feminino de ondas grandes.”
Por isso, quando perguntada sobre o que falta para mais meninas encararem os maiores swells do mundo, a resposta não vem em forma de fórmula mágica. Vem com a sinceridade de quem conhece as durezas do mar — e da vida. “Não é fácil. É um esporte caro, e sem dinheiro não dá. Eu só consegui me dedicar quando passei a ganhar bem no meu trabalho. Tem que ter logística, equipamento, jet ski, gasolina, taxas. Infelizmente, não é um caminho acessível.”
Mas se por um lado a realidade ainda é dura, por outro há algo que dinheiro nenhum pode comprar: a vontade de continuar. Micaela treina com spinning, funcional na areia, natação, corrida. Se prepara física e mentalmente, adapta técnicas de apneia e busca o equilíbrio entre o corpo e o emocional — tudo para estar pronta para o momento certo. Aquele momento que começa com um som eletrônico leve nos fones, e termina com um grito de vitória na prancha, sobre uma parede líquida de 15 metros.

E se a WSL ainda não valoriza como deveria o surf de ondas grandes, Mica segue — com fé, força e foco — seu próprio circuito. Com apoio de pessoas como Bill Sharp e Gary Linden, com os próprios recursos, com muito amor ao esporte. Ela segue não apenas por ela, mas por todas que virão. “Quanto mais mulher no mar, melhor. Eu amo surfar na companhia de uma amiga. Adoro fazer uma dupla feminina de tow-in. O caminho é esse.”
No fundo, o que move Micaela é algo simples — e imenso. Uma onda longa, que não acaba nunca. Uma conexão com o mar que começou em Matinhos, mas que hoje pertence ao mundo. E ao futuro.