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Sol no Inverno: por que a proteção da pele não pode parar na estação mais fria do ano

Frio não significa ausência de radiação UV

Com a chegada do inverno, muita gente reduz — ou simplesmente abandona — o uso do protetor solar. A sensação térmica mais baixa, os dias nublados e a menor intensidade aparente do sol criam a falsa impressão de que a pele está menos exposta aos danos da radiação ultravioleta. A ciência, porém, mostra exatamente o contrário: os raios UV continuam atingindo a pele durante o inverno e seguem associados ao envelhecimento precoce, manchas, queimaduras e aumento do risco de câncer de pele.

Especialistas em dermatologia e fotobiologia alertam que a radiação UVA, principal responsável pelo fotoenvelhecimento e por danos profundos às células cutâneas, permanece relativamente constante ao longo do ano. Diferentemente da UVB, que é mais associada às queimaduras intensas do verão, a UVA atravessa nuvens, vidros e permanece ativa mesmo em dias frios e encobertos.

Esse cenário ajuda a explicar por que o câncer de pele continua sendo o tipo de câncer mais frequente no Brasil e no mundo.

Segundo revisões científicas recentes, a exposição acumulativa à radiação ultravioleta é um dos principais fatores ambientais relacionados ao desenvolvimento de tumores cutâneos, incluindo carcinoma basocelular, carcinoma espinocelular e melanoma.

O inverno engana: menos calor, mesma exposição acumulativa

Um dos principais problemas do inverno é o comportamento das pessoas diante do clima. A percepção de risco diminui, e a proteção solar costuma cair drasticamente. No entanto, estudos sobre exposição solar mostram que os níveis de radiação ultravioleta continuam relevantes durante boa parte da estação, especialmente em regiões de altitude elevada, áreas costeiras e locais com forte reflexão da luz.

A reflexão da radiação pela areia, água, concreto e até pela neve pode aumentar significativamente a carga de UV recebida pela pele. Em esportes de inverno e atividades ao ar livre, isso se torna ainda mais importante.

Pesquisas envolvendo atletas e praticantes de exercícios outdoor identificaram níveis elevados de exposição solar mesmo em ambientes frios, reforçando que temperatura e radiação UV não têm relação direta. Em muitos casos, a baixa sensação térmica reduz a percepção de queimadura e prolonga o tempo de exposição sem proteção adequada.

Radiação UVA: o inimigo silencioso da pele

Enquanto a UVB costuma ser mais intensa no verão e no horário de pico solar, a radiação UVA representa cerca de 95% da radiação ultravioleta que chega à superfície terrestre durante todo o ano.

Ela penetra profundamente na pele, atingindo fibras de colágeno e elastina, favorecendo:

  • envelhecimento precoce;
  • perda de elasticidade;
  • rugas;
  • hiperpigmentação;
  • inflamação celular;
  • danos cumulativos ao DNA.

O maior problema é que a ação da UVA é silenciosa. Muitas vezes não há vermelhidão imediata, mas o dano biológico continua acontecendo diariamente.

Pesquisadores destacam que o acúmulo de exposição ao longo dos anos possui forte relação com alterações celulares associadas ao câncer cutâneo e ao fotoenvelhecimento.

Dias nublados também oferecem risco para a pele

Outro mito comum é acreditar que nuvens bloqueiam totalmente os raios solares. Estudos atmosféricos mostram que até 80% da radiação UV pode atravessar a cobertura de nuvens dependendo da espessura e do tipo de formação atmosférica.

Além disso, o índice UV pode permanecer moderado mesmo em dias frios. Isso significa que a pele continua recebendo doses biologicamente relevantes de radiação.

A Organização Mundial da Saúde e diversas sociedades dermatológicas internacionais recomendam proteção solar diária independentemente da estação do ano.

Protetor solar no inverno ajuda a prevenir câncer de pele

A literatura científica atual é consistente ao demonstrar que a fotoproteção regular reduz danos celulares induzidos pela radiação ultravioleta.

Revisões de literatura sobre fotoproteção apontam que o uso correto de protetor solar contribui para:

  • redução do risco de câncer de pele;
  • diminuição do fotoenvelhecimento;
  • prevenção de manchas;
  • redução de inflamações causadas por UV;
  • proteção contra danos cumulativos ao DNA celular.

Pesquisadores também ressaltam que a eficácia do protetor depende da quantidade aplicada, da reaplicação correta e da proteção de amplo espectro contra UVA e UVB.

E a vitamina D? O equilíbrio entre benefício e risco

Um dos argumentos mais usados contra o uso diário de protetor solar é a produção de vitamina D. A questão, porém, é mais complexa do que parece.

A vitamina D é realmente sintetizada pela pele através da exposição à radiação UVB. Entretanto, estudos mostram que pequenas exposições controladas já podem estimular sua produção em muitos indivíduos, sem necessidade de queimaduras solares ou exposição excessiva.

Revisões sistemáticas indicam ainda que fatores como idade, tom de pele, latitude, horário do dia, estação do ano e área corporal exposta influenciam diretamente essa síntese.

Além disso, pesquisadores alertam que exposição solar desprotegida não deve ser encarada como estratégia livre de risco para obtenção de vitamina D. Em casos de deficiência, acompanhamento médico, alimentação adequada e suplementação podem ser alternativas mais seguras.

Pele ressecada no frio exige ainda mais cuidado

O inverno também altera a barreira cutânea. O ar seco, banhos quentes e menor umidade reduzem a hidratação natural da pele, favorecendo:

  • descamação;
  • irritação;
  • coceira;
  • aumento da sensibilidade;
  • piora de dermatites.

Quando a pele já está fragilizada, os danos causados pela radiação UV podem se tornar ainda mais relevantes. Por isso, dermatologistas costumam recomendar produtos que combinem proteção solar e ativos hidratantes durante a estação fria.

Quem precisa ter atenção redobrada no inverno

Alguns grupos apresentam risco ainda maior de danos cutâneos mesmo durante os meses frios:

Pessoas que trabalham ao ar livre

Profissionais da construção civil, agricultura, trânsito, entregas e esportes outdoor acumulam exposição UV diariamente.

Atletas e praticantes de esportes

Corrida, ciclismo, skate, pesca, beach tennis, surf, trekking e atividades outdoor mantêm alta exposição solar mesmo em baixas temperaturas.

Pessoas de pele clara

Fototipos mais baixos apresentam menor quantidade de melanina protetora e maior suscetibilidade ao dano UV.

Pessoas com histórico familiar de câncer de pele

O acompanhamento dermatológico e a fotoproteção regular tornam-se ainda mais importantes.

Como proteger a pele corretamente no inverno

Especialistas recomendam manter os mesmos princípios básicos de fotoproteção usados no verão:

  • utilizar protetor solar de amplo espectro;
  • reaplicar ao longo do dia em exposições prolongadas;
  • proteger rosto, pescoço, orelhas e mãos;
  • usar óculos escuros com proteção UV;
  • priorizar hidratantes associados à rotina de cuidados;
  • utilizar bonés, roupas UV e barreiras físicas quando possível.

Mesmo em ambientes internos, a exposição indireta à radiação UVA através de janelas pode ocorrer ao longo do dia.

O erro mais comum é achar que o inverno protege a pele sozinho

A ciência atual não sustenta a ideia de que a pele está “segura” apenas porque a temperatura caiu. O frio pode reduzir a sensação de exposição solar, mas não interrompe os efeitos biológicos da radiação ultravioleta.

O dano solar é cumulativo, silencioso e progressivo. Por isso, interromper a proteção justamente durante meses inteiros do ano pode aumentar a exposição acumulada ao longo da vida.

Mais do que uma questão estética, o uso contínuo de proteção solar é hoje tratado como medida preventiva de saúde pública.

Fontes

  • “The Relationship between Ultraviolet Radiation Exposure and Vitamin D Status” — Nutrients (2010)
  • “Dose-response for change in 25-hydroxyvitamin D after UV exposure: outcome of a systematic review” — Endocrine Connections (2021)
  • “25-Hydroxyvitamin D status, vitamin D intake, and skin cancer risk: a systematic review and dose–response meta-analysis of prospective studies” — Scientific Reports (2020)
  • “Solar Ultraviolet Exposure in Individuals Who Perform Outdoor Sport Activities” — Sports Medicine Open (2020)
  • “Vitamin D, sun, sunbeds and health” — Public Health Nutrition (2011)
  • “Eficácia dos protetores solares na prevenção do câncer de pele: revisão de literatura” — Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação (2026)
  • “Atividade Física e radiação UV: medidas de proteção e prevenção de dermatoses cutâneas” — Conjecturas (2022)
  • Organização Mundial da Saúde (WHO) — materiais sobre radiação ultravioleta e prevenção do câncer de pele
  • Instituto Nacional de Câncer (INCA) — dados epidemiológicos sobre câncer de pele no Brasil
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